quarta-feira, 30 de maio de 2018

[notas mentais públicas]

1. o medo é maior quando não compartilhado, quando não dito, quando silenciado. Aí, ele vira o medo de ter medo e triplica de tamanho. o medo é o grande antagonista do amor, eu já havia me esquecido. mas me lembrei lendo o livro que meu filho trouxe da escola. é do chico buarque e todos deveriam ler, eu penso. o amor move. o medo paralisa. o movimento dissipa o medo.

2. parece uma contradição, mas não é. algumas coisas precisam estar bem elaboradas dentro de si antes de chegar aos outros. não sabemos o que nossas palavras podem provocar - a despeito de qualquer intenção. às vezes amor, às vezes ódio. se não está tudo bem por dentro, é mais difícil sobreviver ao ódio.

3. é preciso suportar o mal-estar. sustentar a dor. nem tudo de ruim precisa ser aplacado, apagado, extinto. que obsessão nossa sociedade tem pelo kitsch, pela ordem estética artificial, programada, emocionada, inautêntica. vamos suportar o mal-estar de algo que não deveria ser dito nem escrito, mas foi. deu voz a algo que todos sabem que existe, mas que todos querem esconder. o pavor é perceber que houve alguém com coragem de escrever o horror que todos nós também somos.
Quando ele chegou diante da porta de casa, hesitou ao colocar a chave na porta e girá-la. Aquele gesto repetido tantas vezes, todos os dias, todos os anos, para entrar naquilo que era só deles: a casa. Ele não era propriamente um chorão, mas não se furtava ao poder apaziguador das lágrimas. Então elas desceram pelo seu rosto, porque, antes de girar a chave, lembrou-de de algo prometido ainda no tempo do namoro: "prometo me aquecer no seu coração e a ele chamar para sempre de meu lar". Mas seu coração era um poço muito profundo e inóspito naquele momento. Não havia ninguém ali, nem ele.

Tentou se recompor e abriu a porta num gesto lento, de quem não sabe o que vai encontrar, embora ele soubesse. As luzes estavam apagadas, exceto a do abajur ao lado do sofá. Vendo-a contra a luz, uma silhueta delicada e encolhida, sentiu vontade de esquecer tudo, perdoar tudo, ter a vida deles de volta. Um impulso irracional levou-o ao pé dela e eles se abraçaram. Tão apertado que parecia uma fusão de dois em um. Ele a beijou violentamente e começou a tirar-lhe as roupas. Ela, um fiapo apenas, não conseguiu impedir. 

Ao olhá-la nua, chorou novamente. Agora compulsivamente. Desesperadamente. De joelhos, deixou o tronco cair sobre as pernas e convulsionou barulhentamente a sua dor. Ela buscou suas roupas no chão em silêncio, com o corpo curvado, como quem caminha num velório. Não era possível dizer nada. Eles tinham o amor mais bonito de que tinham ouvido falar. Era amor mesmo. Eram muitos anos juntos, vivendo juntos, construindo juntos. Há muito nada era vivido separadamente por eles. E, apesar da agressividade latente na situação, sentou-se ao lado do corpo dele no chão. O choro abrandara, o peito respirava mais leve.

Em ambos os rostos, as lágrimas construíam a cartografia da dor. Ela lhe ofereceu o colo e ele pousou sua cabeça no alto de suas pernas, quase no ventre, contornando-lhe os quadris com os abraços. A possibilidade daquele silêncio cúmplice os acolhia.

- Não esperava vê-lo hoje. Ontem você disse...
- Eu sei. 
- Então... Você pensou no que eu disse?
- Pensei tanta coisa, lembrei de tanta coisa. Mal fiquei de pé hoje, de tanto que tentava entender o que ocorrera.
- Sabe que sempre admirei o bom uso que faz das palavras. Foi o ponto inicial pra eu me apaixonar... Só você para usar o pretérito mais-que-perfeito numa hora dessas - disse sorrindo.
- Puta que pariu, Laura! Como você consegue? Isso não faz mais o menor sentido! Rir? Agora? Eu estou dizendo que não sei como fui capaz de ficar de pé hoje... Tentando falar de como dói a ponto de ter que vir para casa hoje e você consegue rir?
- Eu só estava lembrando...
- O quê? 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Há pouco, li o texto da semana do Gregório Duvivier (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/06/1648988-a-privada-e-a-bicicleta.shtml#_=_) e penso que se relaciona ao que Marieta falou para o Faustão. É preciso haver inclusão, oportunidades, menos pobres, mais universitários, mais pessoas qualificadas, mais (e melhor) comida na mesa, mais casas. Ainda que queiram negar, isso os governos do PT fizeram em grande medida.

Leio algumas postagens por insinuando que os eleitores "à esquerda" que apoiaram a última candidatura de Dilma estão escondidos ou envergonhados. Eu não estou. Vivemos um momento difícil, é certo. E não vou entrar no mérito econômico, pois não tenho saber para isso. Porém, como não nasci da elite nem cresci com ela, vivenciei muito de perto algumas transformações promovidas nos recentes anos.

Certamente, ainda precisamos percorrer um enorme caminho - e a reforma agrária? e a questão indígena? e o investimento mais decisivo na educação e na valorização do docente? A inclusão pela cidadania (garantia de acesso aos serviços essenciais, como saneamento, saúde, educação de qualidade, políticas afirmativas) é muito mais eficiente do que a inclusão pelo consumo. Mas, para isso, a nossa sociedade precisa de autocrítica. Quantos de nós admitiria "perder" para o todo "ganhar"? Por exemplo, a lei das empregadas domésticas dá aos profissionais do lar direitos importantíssimos, porém há enorme grita da classe média... Limpar a própria privada ninguém quer. É preciso lembrar, no entanto, que um salário melhor e certos benefícios permitem que o empregado dê melhores condições de vida para sua família e evite, assim, que o apelo sedutor do dinheiro rápido do crime conquiste seu filho.

 A sociedade não pode funcionar só para alguns. Não adianta lutar só pela boa educação - pagando uma cara mensalidade -  do seu filho se a filha do porteiro não tiver o mesmo direito. Porque um dia a conta chega. E o criminalidade fomentada por todas as exclusões cobra um preço altíssimo. Não há muros, blindados ou coletes que (n)os possam proteger. A única proteção virá de uma sociedade mais justa para todos.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

"Quero nascer, quero viver"

Sentada diante do computador para trabalhar, até agora só o que fiz foi ler um monte de coisas. Eu gosto de ler.
Também ouço Cartola: porque gosto e porque sei que meu filho também o ouve. Como tenho pensado muito no que vou ensinar a ele, acho que ensinar a ouvir Cartola é um bom começo. Ontem à noite, antes de dormir, fomos  - eu e Francisco - embalados por O mundo é um moinho na melhor voz que existe. Acordei ainda inspirada pelo gênio mangueirense.

São tantas as coisas que quero lhe ensinar, meu filho. Peço, primeiro, que seja pelo exemplo, tão mais eloquente que as palavras.

Quero que saiba ser simples na vida: que precise de pouco, que identifique o necessário, que reconheça o que importa e que aprecie delicadezas.

Quero que seja tolerante, respeitoso e mais: que realmente encontre no outro, na diferença, a beleza. Quero que ame as pessoas e seja reverente às suas características. Quero que seja colaborador em vez de competitivo. Que sua maior ambição seja viver plenamente, em harmonia com o mundo e com os outros.

Meu filho, que seus pais sejam exemplos de que "preço" e "valor" são coisas distintas. Que "shopping" não é passeio. Que cada um é aquilo que constrói subjetivamente e não aquilo que aparenta. Espero que perceba que compartilhar é mais importante que acumular e que a doação - de tempo, de amor, de disponibilidade - são verdadeiras caridades assim como a doação de bens, quando for necessário.

Quero ensinar-lhe a não se levar tão a sério, a rir de si mesmo, a ter dúvidas e questionar, a apreciar a falta, porque é a partir dela, da falta, que podemos nos formar.

Que seu pai e eu sejamos exemplos de sensibilidade às Coisas do Alto. Que demonstremos a importância da ciência, da leitura, dos estudos mas também o respeito por aquilo que está além disso.

No mais, apesar dos nossos desejos e ensinamentos, dependerá de você. E isso é o mais bonito...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Estou esperando

Minha barriga está cheia
da melhor esperança

Grávida do Amor
aguardo minha criança 

Em par, ao seu lado,
vamos encontrar um presente
bem guardado

Pela vida, que ensina,
em nove meses, que a espera
não é uma esquina

É preciso paciência
Sapiência
Gostar da rotina

Gestar, preparar o mundo
Arrumar a casa e a alma
Respeitar as mudanças

Ter coragem
para começar novas andanças

Admitir o medo de não saber
Ter ânsia de correr
Mas ficar, permanecer

Fazer da travessia
um afeto que sacia
uma história que ilumina
qualquer estrada fria

Um rito, um ciclo, um parto
O nascimento
Momento de acolhimento
Vida em movimento

Seja bem-vindo, meu rebento.


domingo, 21 de julho de 2013

Ontem foi o chá de bebê do nosso filho. Foi uma festa de pura alegria e harmonia. Agradeci aos presentes por celebrarem conosco a vinda do Francisco. Agradeci enfaticamente à Vida.

À noite, despindo-me para colocar a roupa de dormir, com os pés inchados e os olhos abatidos pelas olheiras das noites acumuladamente mal dormidas, depois de um dia (uma semana) de intensa preparação para a festa, meu marido me olhou, beijou meu barrigão e disse que aquele fora o momento em que eu estivera mais linda desde que nos conhecemos.

Isso é amor.

domingo, 19 de maio de 2013

Meu filho,

Hoje é Domingo, 19/05, Outono. O dia amanheceu claro, mas sem sol. Seu pai e eu fomos tomar café-da-manhã na rua: pão na chapa com café com leite - uma das bebidas preferidas da sua mãe.

Agora eu estou aqui pensando na vida e me deu uma vontade imensa de falar com você. Quem sabe um dia você vai ler isso e se sentir muito amado? Não sei...

Seu pai está na sala tocando cavaquinho, instrumento ainda novo para ele, que já arranha bem o violão, o tantan e o reco. Meu filho, seu pai adora música! É sambista! É tão feliz! Seu pai, além disso, é muito ligado às coisas do alto; e um dia você terá muito respeito por isso também e vai oferecer um café preto ao Tempo.

Ele com sua música e sua mãe aqui com as palavras, tentando organizar o mundo dela e preparar o seu. O quanto eu vou poder fazer, não sei. Vamos aprender juntos, nós três.

Aliás, lembrei de dizer uma coisa, meu filho: a vida é projeto de longo prazo; fique tranquilo.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Eu tenho prazos na vida. E todos eles se referem ao trabalho. Só o trabalho me dá prazos. E costumo descumpri-los todos. Talvez eu precise abandonar essa parte do meu trabalho porque, para mim, os prazos são bobos, pequenos, irrelevantes.

Há mais que os prazos: há os amigos que sofrem e precisam de beijos, que não curam, mas fortalecem. Há os amigos doentes para os quais cada minuto da minha vida doada é ouro. Há os amigos que precisam começar a escrever a monografia e para os quais a página em branco é um monstro assustador e contam comigo para saber por onde começar.

Há os livros. Tantos. Ainda me resta ler tantos. Há esse vazio a ser preenchido por palavras. E diante do deslumbramento causado por quem consegue dar forma e sentido ao inominável, a Deus, àquilo que existe simplesmente, como cumprir prazos?!

Há a música! Há os meus passos tortos no chão da sala como se bailarina fosse. Há o tempo que passa em meu ócio. Há o silêncio das minhas construções e devaneios. Há as minhas lembranças. Há o som do trem de Paris a Versailles e a paisagem pela janela e aquele sol claro a me lembrar que a vida é boa.

E há Francisco e há o Lucas. E sobre eles basta dizer que minha casa está cheia: cheia de um não sei quê capaz de preencher cada segundo de uma vida tão intensa que basta.

O único prazo inquestionável é a morte. Até lá, vou vivendo e enganando todos os outros.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012

2012 foi um ano bom.

Sempre fui uma criança curiosa. E tímida. Isso quer dizer que muitas das minhas dúvidas jamais foram pronunciadas. Nunca tive coragem de perguntar, quando criança, porque a vida era dividida em anos.  E isso era algo que realmente me intrigava: quem determinou isso? Quem disse que ali acabava um e começava outro? Quando cresci, mesmo sem perguntar, acho que descobri a resposta. Para além da questão física e geográfica, de movimentação do globo, das estações e do dia e da noite, há algo que me responde melhor: a vida é dividida em anos para dar ao homem a chance de recomeçar.

É preciso que algo termine e comece e, muitas vezes, apenas o dia terminar e começar é pouco. Um dia é uma unidade pequena demais para medir as grandes coisas da vida. Eu sei, a vida não precisa ser medida. Porém, nós, que aqui estamos, necessitamos da ideia, ainda que irreal(?), de que estamos começando de novo.

Eu já nasci tantas vezes. Não renasço a cada ano novo. Renasço das minhas palavras. Mas percebo, com os anos, os meus nascimentos, as minhas descobertas. Por isso digo que 2012 foi um ano para ser comemorado.

Nesse ano eu escolhi o luxo do tempo. Trabalhei menos e tive mais tempo. Com mais tempo, pensei mais, dormi mais, fiz mais amor, estudei mais. Tive mais tempo.

Nesse ano eu aprendi como nunca na vida. O aprendizado é um procedimento, uma alternativa, uma postura ética diante da vida. É claro, portanto, que venho aprendendo faz tempo. No entanto, não me lembro de outro momento em que essa maravilha humana, que é a capacidade de assimilar e num segundo já não ser quem se era, tenha estado tão presente em meus fazeres diários. Aprendi o caminho que me leva até mim. Meus Deus! Aprendi o meu lugar... Encontrei um cantinho de apaziguamento. Aprendi minhas miudezas e meus deslumbramentos; encontrei descaminhos e não os chamei fatalidades, porque aprendi que nada - nem mesmo a história - é para sempre. Aprendi a radicalidade que é ser eu.

Nesse ano eu descobri coisas incríveis sobre minha vida. Descobri que tenho (e não que tive) pai e mãe. Um deles não está aqui, mas os dois existem em sua função protetora, formadora e hereditária. Descobri, então, que sou filha e que vivo a minha história, que a construo diariamente com as ferramentas que possuo, que não são nem melhores nem piores, são as possíveis. Descobri que olhar no espelho é ver mais de um.

Nesse ano fiz escolhas. Posicionei-me. Falei e ouvi. Permiti-me errar e me perdoei. Estou mais perto daquilo em que acredito e abri-me a afetos outros sem medo de ser afetada. Fiz amigos verdadeiros. Renovei meu amor. Viajei para lugares de sonho. Sonhei com lugares novos. Finalmente fizeram sentido para mim as palavras de Vinícius: é melhor ser alegre que ser triste.

Gratidão é um bom sentimento para esse ano. E que comece outra vez... 


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Aprender a falar foi o que primeiro me salvou.

"Poesia, minha tia, ilumine as certezas dos homens e os tons de minhas palavras. É que arrisco a prosa mesmo com balas atravessando os fonemas. É o verbo, aquele que é maior que seu tamanho, que diz, faz e acontece. Aqui ele cambaleia baleado. Dito por bocas sem dentes nos conchavos dos becos, nas decisões de morte. A areia move-se nos fundos dos mares. A ausência de sol escurece mesmo as matas. O líquido-morango do sorvete melas as mãos. A palavra nasce no pensamento, desprende-se dos lábios adquirindo alma nos ouvidos, e às vezes essa magia sonora não salta à boca porque é engolida a seco. Massacrada no estômago com arroz e feijão a quase-palavra é defecada ao invés de falada.
Falha a fala. Fala a bala."

LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Cia das Letras, 2002, 2ª ed, p. 21.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Palavra-escudo


 - Laura. Lau-ra. L-a-u-r-a.

Ao mesmo tempo em que escrevia com letras desenhadas e em formatos diferentes o seu nome, também repetia-o em voz alta. Laura era uma menina que não estava acostumada a ser ela, sentia-se estrangeira em si mesma. Questionava-se continuamente o que era ser Laura. Lau-ra. Porém, seu nome, assim pausado, soava-lhe como um escudo romano; dava-lhe um lugar, uma função. Dizer o seu nome para si e para os outros a livrava do abismo da inexistência, da indigência e do medo.
            Então, ser Laura, pelo que lhe sugeria o som de sua voz e a imagem que esse som criava em sua imaginação, era, para ela, escudo. Mas a fragilidade dessa proteção feita de palavras ela só descobriria depois.
            Ela a compreendeu a primeira vez quando se viu diante da morte. No quarto em que antes estava seu pai. Entra e sai. Silêncio. Lágrimas. O que está havendo? Ela estava invisível. O que houve? Novo silêncio. Pela porta entreaberta, viu-a: pesada, imóvel, olhos fechados, sem ar, sem pulso, sem brilho, sem cor, sem força. A inexorável ausência tomando conta de todos os espaços. Laura descobriu que Laura não era escudo. Uma dor lancinante, lança-dor, atingira-lhe o peito em cheio. Ser Laura não a defendeu de coisa alguma. Precisava descobrir que mais ela era.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sobre o desejo

Era um beijo avassalador. Era um casal. Lascívia e paixão. Em público. Como ousavam? Caminhavam suas mãos pelos corpos ora próximos ora mais afastados, só para serem trazidos para perto por uma atitude grosseiramente carinhosa. Libidinosamente ele subia seus carinhos à nuca e prendia os cabelos dela entre os dedos, de modo a forçá-la a um movimento de claro prazer. As bocas se afastavam e eles se cheiravam, se olhavam, se mediam. Diziam qualquer coisa com os lábios colados à pele: um corpo falando com outro.

Olhares curiosos, envergonhados, pudicos, excitados, empáticos, invejosos. Eles eram criteriosamente observados, avaliados, censurados, desejados. Mas pareciam não se incomodar. De pé, no meio de uma discreta praça - dispensavam a proteção dos muros, portões, cantos e sombras. Quando o desejo fala, o mundo se cala. Ficaram ali por uns quarenta minutos. Por quarenta minutos só eles existiram. Apenas a vontade exercia sobre eles um poder irrefreável de ter o outro, engolir o outro, preencher toda falta eroticamente inesgotável.

Foi bonito de ver. Porém, de algum modo, senti-me eu observada por eles. O meu interesse me denunciou de tal modo que fiquei exposta e explícita. Por não desviar o olhar - bebia meu suco calmamente - houve átimos de segundo em que, verdade ou não, nossos olhares se cruzaram. Estive tão ali quanto eles. Fantasiei palavras sussurradas e repeti mentalmente aquela dança. Foi tão bonito!

Levantei-me e quis passar ao lado, desvendá-los, aproximar-me dessa coragem. Mas eles então se desataram. Para onde iriam? Para onde se vai depois disso? Que fazer com o que sobra? Sobra alguma coisa? Sobrei eu: e então soube de mim.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

É o que o tempo faz.

Não é o fim do mundo. Mas confesso que fiquei triste por não encontrar nenhuma foto em que estivéssemos nós dois apenas. Fiquei desconfortável com isso que não pode ser questionado, não se pode mudar. Não gostei de não termos tido mais tempo.  O que primeiro se esquece de alguém que não se vê é a voz. Depois o cheiro. Depois os modos: o andar, as mãos no ar, o olhar. A risada barulhenta. Depois o rosto.

Já esqueci o rosto. Faz tempo. A imagem dele é uma falta imensa. Só vejo a falta. Um vulto. Porque não tivemos tempo. E eu adoro quando alguém me conta uma história nova dele, pois é a única forma de ele ser algo além do vazio da repetição da imagem que falta. Ultimamente todas as histórias estão velhas. O tempo foi pouco pra todo mundo.

Não era o que eu procurava, mas aqui estou em seu colo. Tão pequena. Nada eu lembro desse dia. Mas o sorriso é bonito. E, na foto, ele tinha apenas 27 anos. A idade que eu tenho hoje. Era um garoto com dois filhos. E ele sorria.

O efeito é do tempo mesmo. É o que o tempo faz: tira a tinta, a cor, o tom...

sábado, 30 de junho de 2012

Num salto, a vida

Fazia três anos que meu marido estava gravemente doente. Há dois anos que, entre melhoras e recaídas,  ele praticamente não se levantava da cama e, quando o fazia, caminhava com muita dificuldade até a cadeira que ficava ao pé da janela. De lá, sentado, via a vida em turbilhão na cidade. Mas, verdadeiramente, seus dias se resumiam ao quarto cubicular, ao pequeno rádio à cabeceira e às refeições pontuais. Tornou-se um fiapo, sobra da sombra do que fora.
Com o tempo, também eu fui ficando um pouco aleijada e aprisionada àquele cômodo da casa. Nunca fui muito de pensar sobre a vida, que pobre não tem tempo para isso - a gente vive como pode e pronto! Mas era impossível não se perguntar, pelo menos às vezes ao entoar minhas preces antes de dormir, onde estava a justiça divina e que valor tinha a existência como a daquele homem, encarcerado num corpo apodrecido pelo Alzheimer, refém de uma mente invariavelmente vazia. Quem não tem lembranças o que sabe?
Naquela manhã, porém, havia algo diferente: apesar de o esquecimento habitual acordá-lo como se não fosse um velho doente e entrevado, seu olhar tinha um brilho a mais - não do esquecimento da desgraça, mas do fulgor da esperança.
Abri os olhos e ele já me encarava docemente. Além do evasivo e costumeiro "bom dia", beijou-me. Beijou-me. Na boca. Fez carinho no meu corpo. Há tanto tempo vivíamos como companheiros fraternos que olvidara o prazer de tocar-lhe os lábios. Aquele carinho acendeu-me; eu, que não tinha mais idade de ser mulher. Olhamo-nos com ternura silenciosa e cada um levantou-se de seu lado da cama, encontrando-se à janela. A rua ainda estava vazia. Ele, contudo, estava lá: conectado, presente, lúcido. A brisa fria de julho entrava pela janela levantando alegremente as cortinas.
- Tomei uma decisão, ele disse calmamente. Foi hoje cedo, antes de você acordar.
- O que foi? O quê? Faz tanto tempo que a gente não conversa... Muito menos sobre decisões ou futuro... Que bom que você está de volta... (Esperança!)
- Eu estou cansado. Você vê? Você me vê? Me entende? Eu digo... Sente a minha dor? É insuportável! Então eu rezo para que me perdoe. Mas eu vou...
- Vai?
-...

Minha pergunta foi acompanhada por um salto mudo e rápido. De repente um estampido. Seu corpo desceu seis andares como um pedra. Não pude reagir. Eu era uma estátua à janela. Não sei quanto tempo passou até que eu pudesse me mexer e olhar. Eu poderia dizer do meu desespero, da minha vontade de também cair, da impossibilidade de continuar vivendo. Mas seria mentira... Confesso minha cruel humanidade: aqueles segundos em que minha razão esteve suspensa e eu fui só sentimento foram preenchidos por um surpreendente alívio. Lá de cima, vi um corpo disforme e irreconhecível no chão. Mas tive a impressão de que ele sorria.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As palavras me dão muitos arredores.

sábado, 3 de março de 2012

O cabelo crespo do meu pai.

Estou precisando entranhar meus dedos em cacheadas ondulações. Acariciar tão fundo que encontre a pele. Deslizar a palma como quem não quer pegar. Enroscar indicadores em molas, puxá-las e ver a dança do retorno.

Quando foi que esqueci que isso era bom? Em que buraco negro (!) da ditadura da uniformização ficou preso meu cabelo? Nada em mim é liso: nem meus poros nem minhas crenças. Por que meus cabelos hão de ser?

É mais fácil se saber quando olha no espelho e encontra ali o reflexo de uma verdade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Quando eu fico muito feliz, não saio bem na foto. Sem trocadilhos. Sorrio demais. Um sorriso escancarado que não é fotogênico. Não me preocupo com meu melhor perfil nem com a papada que certemente surgirá desse ângulo. Minha felicidade não é medida em pixels. 

Sempre penso, vendo as fotos, que eu poderia ter feito uma pose mais elegante e que meus cabelos poderiam estar mais bonitos. Talvez seja por isso que, embora aprecie bastante fotografia, eu tenha poucos registros  em comparação aos meus contemporâneos.

Apesar disso, deixo-me fotografar. Tenho a esperança de que um dia essas imagens servirão a uma memória já cansada e serão a cartografia dos dias vividos. Acredito que no tempo da velhice, caso eu chegue lá, a beleza não terá tanta importância ou ela terá mudado de sentido, possivelmente. Oxalá eu esteja sempre feia nas fotos: sinal de que aquele fora um momento de extrema felicidade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Eu tenho par nisto tudo neste mundo.

Tenho preguiça de dissertar. Acho dissertações, em geral, chatas. Desprezo a arrogância daqueles que querem provar que estão certos. Os com razão não me interessam. Adoro os incertos, os poetas, os bêbados, os otimistas, os cheios de esperança. 

Mas há uma ideia que vem me perseguindo que daria uma ótima dissertação. Eu poderia desfiá-la por várias linhas, apresentar pontos de vistas diversos e etc e tal. Nada disso me apetece. Então vou só dizer para eu não esquecer: estou sempre fazendo testamentos. Serei ética e não direi que isso saiu da minha cabeça. Foi outra pessoa quem o disse, mas me atingiu tão em cheio que duvidei da inexistência de Deus.

É isso: você precisa desejar e ser bom no que deseja. Simples assim. Só isso. Na verdade essa pessoa disse isso de outro modo, bem mais elaborado, meio entediante. Mas me transformou. 

Ela não disse e eu ouvi: ser bom não é ser melhor, pelo contrário: se ver bem pequenina, se despojar, desapegar, se assemelhar em vez de se diferenciar tornam a vida bem bonita.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

E, de repente, quando percebo, eu sou toda texto.

sábado, 15 de outubro de 2011

Desejo que, no dia dos professores, meus alunos estejam felizes.