meu silêncio é minha covardia.
"(...) as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa" (Roland Barthes. Aula.)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
da série usando palavras alheias - II
Sabem o que
descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me
entorno e ainda morro vazia, sem gota.
(Do conto "A despedideira", do
livro O fio das missangas, de Mia Couto)
descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me
entorno e ainda morro vazia, sem gota.
(Do conto "A despedideira", do
livro O fio das missangas, de Mia Couto)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Diário na sombra (trecho) - Álvaro de Campos
(...)
Há, além disso,
Aquele pasmo negro, aquele arrepio sombrio,
Que seria na alma
O ter havido um segredo de Deus
Dito no grande solo antenatal, quando a vida
Não raiava ainda ao longe,
E todo o Universo luminoso e complexo
Era ainda um destino inevitavelmente a cumprir.
Se isto não me define - e isto não me define,
Porque o Segredo que Deus me disse não era só isto.
Amo esta cousa que é hoje estar do lado do irreal,
O fim que há nisso, o meu dever de compreender o incompreensível
O meu sentimento d'haver quem não se pode sentir,
O meu grande interesse de impedir na infância,
O domínio dos sonhos arquitetatos na luz.
Sim, é isto que põe
Uma velhice anterior à minha infância na minha face
E no meu olhar uma angústia interior à minha alegria.
Olhas-me disfarçadamente, de vez em quando,
E não compreendes,
E tornas a olhar, disfarçadamente e sempre...
Sem Deus não há vida nesta vida
E não poderás nunca compreender...
Há, além disso,
Aquele pasmo negro, aquele arrepio sombrio,
Que seria na alma
O ter havido um segredo de Deus
Dito no grande solo antenatal, quando a vida
Não raiava ainda ao longe,
E todo o Universo luminoso e complexo
Era ainda um destino inevitavelmente a cumprir.
Se isto não me define - e isto não me define,
Porque o Segredo que Deus me disse não era só isto.
Amo esta cousa que é hoje estar do lado do irreal,
O fim que há nisso, o meu dever de compreender o incompreensível
O meu sentimento d'haver quem não se pode sentir,
O meu grande interesse de impedir na infância,
O domínio dos sonhos arquitetatos na luz.
Sim, é isto que põe
Uma velhice anterior à minha infância na minha face
E no meu olhar uma angústia interior à minha alegria.
Olhas-me disfarçadamente, de vez em quando,
E não compreendes,
E tornas a olhar, disfarçadamente e sempre...
Sem Deus não há vida nesta vida
E não poderás nunca compreender...
(17.09.1916)
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
o guarda-chuva laranja (uma homenagem a uma fada)
Era o mês de julho e fazia frio. Fazia tempo que julho não se parecia tanto com julho. Chovia sem parar gotas pequenas e escassas, porém insistentes. O tempo era, portanto, um imperativo à vida doméstica; mesmo assim, naquele dia, era preciso sair: já não havia mais comida nem para o gato (talvez se fosse só para mim, eu suportasse mais um dia de dieta de baixa caloria).
Livrei-me do pijama de flanela e essa nudez obrigatória pareceu congelar-me a alma. Calças, agasalho e botas foram sufucientes para recompor-me. Na rua, muitos guarda-chuvas batiam-se na calçada espremida a caminho do supermercado. Não via as pessoas, somente todo o aparato que as protegia. Essa realidade é uma metáfora ao contrário, porque não me recordo da última pessoa que realmente vi. As representações têm sido levadas tão a sério, que há a equívoca sensação de que todos são atores, quando não se percebe que o ator, antes de ser outro, expõe publicamente tudo o que verdadeiramente é. Pensei isso enquanto pegava o troco de minhas compras.
Voltava para casa quando, subitamente, o chuvisco cessou e feixes de luz ultrapassaram as nuvens. Senti cheiro de chuva secando. O dia estava mais claro e convidativo. Passando ao lado do único parque da cidade, vi, de relance, alguém por quem tinha muito afeto. Era a avó de uma grande amiga que há muito saiu do país. Fui ao seu encontro e, expressando minha alegria em revê-la, dei-lhe uma longo abraço. Longo e não-retribuído abraço. Estranhei tal frieza e me afastei delicadamente. Ela não olhava em minha direção.
A mulher vestida de branco que a acompanhava tratou de explicar: "É alzheimer, tadinha...". Ouvi meu coração trincando. Pela segunda vez no dia minha alma congelou. A acompanhante informou-me que a família fazia visitas periódicas e que era ela quem cuidava de dona Lucíola. Senti raiva, desprezo e, por fim, compaixão. "É difícil para todos", ela completou o que eu pensara.
Mesmo sob advertências de que sua memória estava péssima, insisti em conversar. Não poderia, porém, ter começado com pergunta mais imprópria:
- Lembra de mim? Joana, filha da Silvia, da casa de esquina? Eu e Luciana, sua neta, brincávamos quase toda tarde no seu jardim...
Ela se virou calmamente, olhou-me e perguntou:
- Quem é você?, ela fez a pergunta mais cruel que se pode fazer a alguém.
- Joana, filha de Silvia, da casa da esquina...
(Ela sorriu)
Com um sorriso, foi assim que ela me respondeu. Nem sim nem não, mas com um sorriso. Compreendi: ela não sabia a resposta. Mas isso não era uma dor. Também não era uma alegria. Ela sorriu como criança sorri, como criança, ao não saber uma resposta, sorri. E o seu sorriso me disse que ali ainda havia alguém real, com lacunas que a vida e a doença lhe impuseram, mas cuja autenticidade não se questionava.
Uma brisa fria levou daquele rosto a expressão reconfortante que eu vira segundos atrás. Despedi-me das senhoras. Voltou a chuviscar enquanto eu abria a porta de casa. Entrei. Olhei-me no espelho do corredor da entrada e me vi.
Livrei-me do pijama de flanela e essa nudez obrigatória pareceu congelar-me a alma. Calças, agasalho e botas foram sufucientes para recompor-me. Na rua, muitos guarda-chuvas batiam-se na calçada espremida a caminho do supermercado. Não via as pessoas, somente todo o aparato que as protegia. Essa realidade é uma metáfora ao contrário, porque não me recordo da última pessoa que realmente vi. As representações têm sido levadas tão a sério, que há a equívoca sensação de que todos são atores, quando não se percebe que o ator, antes de ser outro, expõe publicamente tudo o que verdadeiramente é. Pensei isso enquanto pegava o troco de minhas compras.
Voltava para casa quando, subitamente, o chuvisco cessou e feixes de luz ultrapassaram as nuvens. Senti cheiro de chuva secando. O dia estava mais claro e convidativo. Passando ao lado do único parque da cidade, vi, de relance, alguém por quem tinha muito afeto. Era a avó de uma grande amiga que há muito saiu do país. Fui ao seu encontro e, expressando minha alegria em revê-la, dei-lhe uma longo abraço. Longo e não-retribuído abraço. Estranhei tal frieza e me afastei delicadamente. Ela não olhava em minha direção.
A mulher vestida de branco que a acompanhava tratou de explicar: "É alzheimer, tadinha...". Ouvi meu coração trincando. Pela segunda vez no dia minha alma congelou. A acompanhante informou-me que a família fazia visitas periódicas e que era ela quem cuidava de dona Lucíola. Senti raiva, desprezo e, por fim, compaixão. "É difícil para todos", ela completou o que eu pensara.
Mesmo sob advertências de que sua memória estava péssima, insisti em conversar. Não poderia, porém, ter começado com pergunta mais imprópria:
- Lembra de mim? Joana, filha da Silvia, da casa de esquina? Eu e Luciana, sua neta, brincávamos quase toda tarde no seu jardim...
Ela se virou calmamente, olhou-me e perguntou:
- Quem é você?, ela fez a pergunta mais cruel que se pode fazer a alguém.
- Joana, filha de Silvia, da casa da esquina...
(Ela sorriu)
Com um sorriso, foi assim que ela me respondeu. Nem sim nem não, mas com um sorriso. Compreendi: ela não sabia a resposta. Mas isso não era uma dor. Também não era uma alegria. Ela sorriu como criança sorri, como criança, ao não saber uma resposta, sorri. E o seu sorriso me disse que ali ainda havia alguém real, com lacunas que a vida e a doença lhe impuseram, mas cuja autenticidade não se questionava.
Uma brisa fria levou daquele rosto a expressão reconfortante que eu vira segundos atrás. Despedi-me das senhoras. Voltou a chuviscar enquanto eu abria a porta de casa. Entrei. Olhei-me no espelho do corredor da entrada e me vi.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
doce leveza
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
les petit
Havia um prazer tão modesto naquela brincadeira: um caixote em cima, outro embaixo e eis minha mansão. Era princesa de um castelo ou professora de uma escola ou dona-de-casa e isso era divertidíssimo. Eu, minhas bonecas - filhas? alunas? súditas? - algumas panelas velhas e não havia quem me retirasse daquele mundo de imaginação. Onde se enxergavam panos velhos, eu via cortinas de renda francesa; o caixote menor era a mesa de mármore; a entrada, um caminho desenhado na grama por pedras lapidadas em diversos formatos. Eu estava sozinha, mas entendia essa solidão. Ela era necessária, porque quem veria o mesmo? Meu irmão se esforçava, até fingia - poucas vezes deparei-me com tanta generosidade - mas não vivíamos no mesmo mundo.
Ele era do mundo sensível das coisas e das pessoas. Aquele que toda criança quer ter por perto para fazer travessura, pois nada teme. Não bastava imaginar-se o super-homem, precisava subir a goiabeira e jogar-se na caixa-d'água - a tampa ovalada o fez crer que iria bater e voltar. Nada feito. Pulou, quebrou a tampa e nem um arranhão. Minha mãe diz que Deus deixou que ele voasse. Por isso era adorado, ovacionado pelas outras crianças. Era um corajoso. Minhas primas nunca quiseram saber de bonecas ou ficar comigo; o divertido de ir para minha casa era o meu irmão. Eu sabia disso e concordava, aliviada.
Essa história não termina aqui. Mas, por enquanto, estou de novo no caixote, o sol está fraco e o dia é claro. Ouço meu pai cantando e as gargalhadas do meu irmão não atrapalham minha brincadeira. Só um minuto mais...
Ele era do mundo sensível das coisas e das pessoas. Aquele que toda criança quer ter por perto para fazer travessura, pois nada teme. Não bastava imaginar-se o super-homem, precisava subir a goiabeira e jogar-se na caixa-d'água - a tampa ovalada o fez crer que iria bater e voltar. Nada feito. Pulou, quebrou a tampa e nem um arranhão. Minha mãe diz que Deus deixou que ele voasse. Por isso era adorado, ovacionado pelas outras crianças. Era um corajoso. Minhas primas nunca quiseram saber de bonecas ou ficar comigo; o divertido de ir para minha casa era o meu irmão. Eu sabia disso e concordava, aliviada.
Essa história não termina aqui. Mas, por enquanto, estou de novo no caixote, o sol está fraco e o dia é claro. Ouço meu pai cantando e as gargalhadas do meu irmão não atrapalham minha brincadeira. Só um minuto mais...
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
no meio do caminho tinha uma palavra
não sei rimar
não crio frases de efeito
nem sou escritora
(só carrego as palavras em mim)
não sou solar
não sou otimista
não sou bem-humorada
não sou aventureira
não sou voraz
não arrisco
não aproveito o dia
não chego às 5 da manhã
não bebo todas
não sou organizada
não tenho horário de estudo
não cozinho bem
não li James Joyce
não assisti a Tomates verdes fritos
nem conheço de cor todas as músicas de chico
não crio frases de efeito
nem sou escritora
(só carrego as palavras em mim)
não sou solar
não sou otimista
não sou bem-humorada
não sou aventureira
não sou voraz
não arrisco
não aproveito o dia
não chego às 5 da manhã
não bebo todas
não sou organizada
não tenho horário de estudo
não cozinho bem
não li James Joyce
não assisti a Tomates verdes fritos
nem conheço de cor todas as músicas de chico
O que eu não sou
é o que eu sou.
quando o espaço entre
o que se é
e o que
se quer ser
é grande.
no meio desse caminho
preciso deixar nascer
umas dessas palavras de que estou grávida
,
mesmo que não façam sentido
ainda que não sejam poesia
nem bonitas
preciso expô-las
expor-me
extrair-me
delas
aceitá-las em sua feiura e humanidade.
é o que eu sou.
quando o espaço entre
o que se é
e o que
se quer ser
é grande.
no meio desse caminho
preciso deixar nascer
umas dessas palavras de que estou grávida
,
mesmo que não façam sentido
ainda que não sejam poesia
nem bonitas
preciso expô-las
expor-me
extrair-me
delas
aceitá-las em sua feiura e humanidade.
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