"(...) as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa" (Roland Barthes. Aula.)
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Religiosidade
Torna-me irmã até mesmo do mais imundo
dos homens, porque o meu começo,
e o dele, foi o verbo, berço
de toda criatura
cuja amargura não tem endereço.
Quando leio um poema de Drummond
Essa é minha oração, o meu alento
É como se Deus dissesse:
"Não te aflijas, meu rebento!
Há esperança!"
(Uma flor nasceu na rua! É feia, mas é uma flor!)
Que Alegria!
Então sei que Ele existe
Faz do poeta seu sacerdote
a transpor o limite do sagrado
pois mostra-nos, em sua ode,
Amor divino disfarçado
em poesia.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Metáfora - Gilberto Gil
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A espera
Minha roupa simples parece inadequada à ocasião, mas gosto dela: sapatilhas vermelhas, calças jeans, minha camisa preferida, um anel, grande, de ouro, brincos de pérola. Ajeito-me, alisando a roupa sistematicamente, como se a tornasse digna com o gesto repetido. Aceito mais uma dose e bebo sem pressa. Ele não se atrasa. Há tempo. O tempo é exato.
Tudo está no seu devido lugar, no lugar que cada coisa escolheu, ou onde lhe puseram. Cada qual que providencie a parte que lhe cabe. Aos outros, cabe a generosidade de ser generoso, se preciso for. E se eu tiver uma filha? Nome é bobagem. Nossa, dessa vez ele se atrasou. Acho que vou beber uma tequila. A moça tirou os óculos, enxugou as lágrimas, deixou-se abraçar. Não adianta resistir, manter-se no sofrimento. Perdoar é libertador, acho que foi o que o homem disse. Uma dose de tequila por favor!
Meus olhos sorriem. Uma alegria modesta e constante me mantém. Uma alegria aguda explode! Que bom que chegou! Não quero perder o tom, nem o horário, nem o desejo, nem o bonde, nem a medida do nosso amor.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Palavra (En)cantada
Seguem trechos que me marcaram. Alguns sem referência, infelizmente. Compartilho-os:
"Saiba que os poetas, como os cegos, sabem ver na escuridão"
"A poesia me deixa impressionado com a vida"
"A literatura deve ser compartilhada como um pão, no café da manhã de todo dia"
"O futuro é uma brincadeira que a gente tropeça nele. Tudo se acha no passado" (Tom Zé)
"A massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico" (Oswald de Andrade)
"A função da literatura é nutrir o homem de impulsos" (Arnaldo Antunes)
O filme brinda nossos olhos, ouvidos e, principalmente, nosso coração com as sofisticadíssimas criações que compõem nossa canção popular. Por que nossa música popular é tão rica? Por que nossas letras têm procedimentos estéticos dignos dos mais belos poemas? Qual o motivo de produção tão vasta e variada? Assista ao filme, consiga algumas respostas, invente outras e deixe-se encantar.
sábado, 18 de setembro de 2010
Meu caro,
Sabe o que é? Eu gosto de pessoas, gosto do ser humano, acho-o uma máquina incrível de criatividade e belezas. Mesmo quando o que mostram são feiúras e repetições imbecis de erros já tão ultrapassados, acredito que o fazem pensando que estão sendo autênticos e belos. Alguns homens estão cegos para suas infinitas possibilidades de amor e criação. Não tenho raiva deles, tenho dó. Lamento enormemente que nem todos sintam a pulsão para o bem ou que a reprimam ou que não a possam sentir, pois só conheceram, desde o seu nascimento, o ódio e a indiferença.
Por sorte, e é disso que se trata a minha recente aceitação para o destino materno, estou cercada daqueles que fazem com que a existência nesse pedaço de chão, um pouco de céu e mar, não seja apenas um acúmulo de provações. Ando religiosa, sentindo-me novamente ligada a alguma coisa maior que não pretendo dar nome nem rosto, mas que faz eu reconhecer, naqueles que nem mesmo conheço, um traço de irmandade.
Há algumas crianças, adolescentes e jovens jovens perto de mim, quase todos os dias. Como são criativos! Como são livres, verdadeiros, sem preconceitos. Alguns tão sensíveis, você sabe, com os quais posso ser cúmplice silenciosamente. O que nossos silêncios e palavras compartilham? Algumas dores, tão reais e impossíveis de se escapar, artes, perdas, alegrias, saberes. Compartilho, quase todos os dias, com esses seres humanos ainda em desenvolvimento, minhas humanidades. Aprendo e recomeço. Diante de tanta vida, não há espaço para a morte de nenhum desejo.
Nem para o desejo de ser mãe, apesar de o mundo parecer assustador. Quando meu corpo e nossa vida estiverem prontos, cumprirei, feliz, esse papel que faz parte da minha natureza tão feminina.
Desculpe-me, mas não precisa responder. Eu só queria contar.
Carinhosamente,
domingo, 5 de setembro de 2010
Milagre
Quando revisitei esse símbolo, já carregado de outras horas e dias e vivências, apenas um nascimento não daria conta do que precisava expressar. Foi preciso exagerar a lógica humana e nascer várias vezes. Para que nos aproximemos mais da realidade, preciso contar o que de fato aconteceu. O que está acontecendo.
Ando nascendo de palavras. As palavras que leio apresentam-me, todos os dias, a vida, a beleza e o saber. Aprendo com palavras e por meio delas ensino. As palavras que digo me curam. Não depressa. Por isso é um processo. Mas à medida que as elaboro, me elaboro; quando as organizo, é a mim que coloco no lugar; se as pronuncio decididamente, descubro-me forte; e, se entre soluços não as distingo bem, sei que preciso respirar e dar -lhes tempo: as palavras são mais inteligentes quando têm tempo de se realizarem em sua forma e conteúdo.
Nunca coloquei aqui o poema completo de Cecília Meireles que dá título ao blog. Esse é um bom momento.
Romance LIII ou Das palavras aéreas
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora...
- e estais no bico das penas,
e estais na tinta que as molha,
e estais nas mãos dos juízes,
e sois o ferro que arrocha,
e sois barco para o exílio,
e sois Moçambique e Angola!
Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...
Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?
- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
- sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada,
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
terça-feira, 27 de julho de 2010
O medo
que não me ouço?
Que não deixo meu peito
se encher de ar
e falar com voz doce
ao resto do meu corpo?
Onde estou eu
que não me deixo estar
exatamente onde gostaria
de estar?
Que é que penso eu
que não percebo
que só eu sei
o erro que cometo
a dor que suporto
a alegria de que preciso
a liberdade de que gozo?